quarta-feira, 12 de agosto de 2009

"Crónicas de idade avançada"

Então escuta bem. Já tenho a tua foto no bolso da camisa comida pelas traças. No meu passo envelhecido, caquéctico, tento desesperadamente enfrentar as memórias, nuas e cruas, que lutam, moem, rasgam contra a minha vontade de alcançar aquele areal onde criámos a razão das nossas vidas, e a nossa maior fraqueza. Olho firmemente o horizonte. Era aqui que o nosso Amor era criado, recitado, cantado e aplaudido pelos deuses. As rochas típicas do litoral norte português foram muitas vezes a canoa que nos fez sonhar mais alto e mais longe, que nos fez acreditar num sempre verdadeiro, e num Amor crepitante de desejo e paixão.
Abandonaste-me, e ainda por cima levas-te contigo a minha alma. Deixaste-me só. Perdido. Desfeito. Mergulhado numa miríade de sentimentos afogados neste mar e maresia que me cortam, recortam, desfalcam, abalroam, desde desse dia.
A minha felicidade era quando largavas a minha mão ao fim da tarde e corrias pelo areal de lés a lés, desafiando o vento contrário do norte, só para sentir o teu cabelo ao vento. E eu, qual apaixonado, via-te com olhar atento, tão brilhante como aljôfar, com o cabelo em gaforina, e o coração a bombear a pureza apócrifa do Amor eterno. Ainda hoje penso, escamoteado, que apesar da velhice comprovada pelas rugas e a pele queimada pelo sol, vives dentro de mim, corres nas minhas veias. Pura ilusão. Miragem de tempos antigos.
E as nossas noites nas dunas? Cheirávamos a maresia, sentíamos o ar nocturno, imaculado, salgado, tocar os nossos corpos abraçados ao ritmo da ondulação badalada com sulcos irregulares, respirávamos essa paixão que emanávamos até as estrelas sibilantes e bebíamos da lua prateada nos nossos lábios que aqueciam até os corações mais gelados.
Mas hoje estou aqui para dar o passo em frente. Estou aqui para te dizer de joelhos, doridos pelo mais de meio século de vida, que quero a tua alma e a minha de volta. Quero que me beijes, quero tocar em cada poro exsudado por mim em ti. Quero-te dizer que passe o tempo que passar, estas mãos que trabalharam os campos deste país, que nos sustentaram, este corpo que te tocou infinitas vezes com a volúpia ardente, esta paixão que provocou fremitação quer-te perdida de amores. Isso, amores. Nunca entendi porquê que me deixaste, ou melhor porquê que o Amor nunca me deixou. Mas hoje sabes que ainda te Amo. Hoje vês os meus olhos verdes á luz do sol brilhantes como os dos meninos, e o meu coração já sabe que tudo o que me deixaste não foi mágoa nem ardores súbitos e frios na coluna, mas sim, a esperança de um dia te ter outra vez.

4 comentários:

Mara disse...

Tens um vocabulário que me ultrapassa :O
E esse amor Diogo...parece infindo*

catarina santos disse...

"Hoje vês os meus olhos verdes á luz do sol brilhantes como os dos meninos, e o meu coração já sabe que tudo o que me deixaste não foi mágoa nem ardores súbitos e frios na coluna, mas sim, a esperança de um dia te ter outra vez. "

wooow, eu fiquei sem palavras para este teu texto. está simplesmente intenso, e muito bem escrito. os meus parabens :D
*

nez disse...

escreves lindamente, parabens :) *

Anónimo disse...

A maneira como escreves, complementa uma escrita emocionante, como se mostrasses o ser majestoso que sai de cada palavra...bate no coraçao como flechas elaboradas com sentimentos ardentes, setas que se sentem, mas nao provocam dor...
Um dia algo chamou a chama, sentimos, mas nao vimos...no final apercebemo nos que o mundo nos pertence nao como duas cores do mesmo quadro, mas sim como um todo, onde te vejo longe, mas te sinto perto...
A vida mostra que o amor pode guiar te e levar te à mais bela mistificação da natureza, onde te espelhas em mim, como a agua transparece a sua ideologia em belezas raras e naturais...
Porque o mundo nao tem de ser diferente, tem de ser apenas unico...Esse mundo reside aqui comigo, quando tou contigo...
A linha do ilimitado torna se alcançavel, ao estender de uma mao, mas torna-se fugidia ao cantar de um coração...
O chamamento em ti, reflecte em mim a essencia do meu ser pensante...
Porque nao se fala, apenas se sente...um brilho numa noite, um olhar de uma estrela e um chamamento de uma lua, sao a prova da emoçao que reside aqui por ti!