domingo, 9 de janeiro de 2011

"...Meu Amor..."


"...Falta-me soltá-lo aos quatro ventos,
para depois segui-lo por onde for,
ou então dizê-lo assim baixinho,
embalando com carinho
o teu nome, meu Amor..."






Olho para ti de relance para que não repares. A tua mão aquece a minha, enquanto passeamos como habitualmente na margem do rio Douro, sendo maestro do meu caminhar. A brisa abraça-me o rosto e faz os meus olhos lacrimejarem, mas apenas o meu inconsciente se apercebe disso. O meu Pensamento, esse, está atrás no tempo pouco mais de 40 anos. Recordo-te com grande precisão. Eras a mulher mais bonita que algum dia havia visto. Os teus olhos azuis e cabelo loiro cintilavam mais que o sol aos meus olhos. A tua cintura delgada, e as formas acentuadas tornavam-te respeitosamente apetecível. E o teu sorriso…ai esse sorriso!
Lembro-me do dia em que nos conhecemos como se de hoje se tratasse. Foi num baile de verão nas ruas anexas á Sé do Porto e lá estavas tu. Dançavas alegremente, sorrindo para os teus pais que dançavam juntos ao teu lado. Mal sabias que era eu quem mais te observava. Eras de uma elegância, de uma humildade, de uma beleza incomuns. Nessa noite, os meus pés fizeram-me deslizar ao longo da rua, que servia de pista de dança, e parar junto ao teu ouvido para te segredar o convite que queria fazer há algum tempo. Nesse momento senti o teu aroma a rosas. O tecido do teu vestido era suave como penas e sentia-me capaz de ficar assim uma eternidade. Anuis-te, e só aí me apercebi que já te havia pedido uma dança. A tua cara pálida realçava ainda mais as tuas íris azuis cor do céu, e os teus lábios vermelhos como se fossem tirados de uma boneca de porcelana, e agora, as tuas maças do rosto mais encarnadas do que nunca. Dançamos horas a fio até as doze badaladas terem feito com que tivesses de te retirar. Antes de ires seguras-te a minha mão, e disseste-me o teu nome, Matilde. Sem saber o que te dizer, mantive o meu silêncio e o sorriso mais aberto e aparvalhado que algum dia havia esboçado. Foste então embora.
Nas semanas seguintes procurei-te inúmeras vezes sem sucesso. Era das poucas pessoas que tinha carro com apenas 16 anos e pensava com isso impressionar-te. Contudo, nunca te encontrei. Havia já desistido, mas ironia do destino dois meses depois enquanto entregava chapéus, cumprindo os ofícios a que o meu pai me obrigava, toquei sem saber á tua porta. Abriste-ma, e fiquei abismado. Vivias na casa mais humilde do bairro, mas contagiavas de nobreza. O teu olhar pousou no meu, e fiquei nervoso como se fosse um menino a chegar pela primeira vez á escola. Entreguei-te o chapéu para o teu pai e com um misterioso impulso convidei-te para passeares, o qual aceitas-te. Recordo-me. Fomos até á foz comer um gelado, coisa que nunca tinhas feito. Apreciei-te durante todo o caminho e a cada passo me fascinavas mais. A noite caiu quando estávamos a chegar á zona da ribeira. Havia ainda algumas crianças a saltar para o rio desde os muros e até da ponte D.Luis. Alguns repetiam desenfreados o caminho entre o cais de Gaia e a Ribeira a nado. A lua estava cheia e a tua presença dava-lhe um sabor diferente. Descemos a rampa até a margem do rio onde os barcos já descansavam. Descalças-te as tuas sandálias e mergulhas-te os teus pés na água formando círculos concêntricos. A brisa estava fresca e dava movimento ao cenário que vislumbrava. Sentei-me contigo e senti a tua cabeça tocar o meu ombro. Incrédulo olhei-te e tu fizeste o mesmo. Quase como autómatos, os nossos lábios tocaram-se e beijei-te como se fosses a única mulher na minha vida.
E foi até hoje. Fazemos este percurso todos os dias para que a velhice não nos roube as memórias mais preciosas que temos, e parece sempre como da primeira vez. Continuo apaixonado por ti como naqueles dias de juventude e aventura constante. Descobri o verdadeiro Amor sem ter de o perseguir e mantive-o todo este tempo comigo. Sei que é um Amor mais poderoso que qualquer império, mais poderoso que qualquer dificuldade.
Sentas-te na margem e semi-fundeias os teus pés como naqueles dias. Já é tarde e a noite voltou a cair como se de uma repetida curta-metragem se tratasse. Mas insistes em formar círculos concêntricos novamente. Talvez porque te façam lembrar aquele dia ou talvez porque signifiquem algo como o ciclo da vida do qual fazemos parte. Ainda assim, sempre que te vejo fazê-lo tudo que vejo é o poder que tens sobre a natureza. Tens esse dom especial. O dom de fazer serenatas ás estrelas, em silêncio.

4 comentários:

Joana Sousa disse...

Está tão fantástico! Adorei.
Amores destes valem a pena, e dão vontade a qualquer um de encontrar um assim.
Parabéns, não faltou entusiasmo ao ler este texto :)

Ângela Raquel disse...

Mais um texto bem escrito. Adorei, sobretudo esta parte final : «Tens esse dom especial. O dom de fazer serenatas às estrelas, em silêncio.» (:

Vera Sousa disse...

Como sempre, vir aqui é uma alegria enorme, consegues-me deixar completamente viciada na tua escrita, e eu fico sempre à espera que voltes. Como disse, e volto a dizer, não conheço nenhum homem que consiga escrever como tu, e tenho um enorme orgulho em poder acompanhar de perto todo este teu empenho!
Um beijinho e espero que voltes mais vezes Diogo :)

TbellaNessie disse...

LINDO!!!

Todo o texto está bem escrito mas para mim a melhor parte é o final!

Espero que amores assim existam mesmo porque quero um assim para mim :)