quinta-feira, 3 de março de 2011

"...Um homem com sorte..."





A exclamação do teu olhar tramita a vontade de vires comigo seja para onde for. O mundo é pequeno para tal Amor, mas o silêncio absorve vontades, palavras, sentimentos, e é levado pelo vento fresco da orla marítima, para lugar desconhecido.
O navio afasta-se do cais e o vento opõe-se á minha partida. Se pudessem também as tuas mãos o faziam. Mas não. Ao invés de todas as pessoas, que tão vigorosamente bracejam em tom de despedida, os teus braços não se erguem. A vida é madrasta e por vezes torna-nos meros funâmbulos. Apesar disso, o teu olhar tem mais verdade do que qualquer outro, e a esperança que emanas é força da natureza.
O navio é enorme, leva-me contra a corrente, empurra-me para o horizonte, e ainda assim tu estás perto. És omnipresente diria, talvez porque és divindade na minha vida, ou só porque sem ti o mundo não seria mundo. Nem a madeira que serve de chão á proa do navio eu consigo sentir. Pensaria ser bom sinal caso fosse por estar a levitar, e flutuasse até ti. Mas tudo se resume mais uma vez a falta de força que por vezes sinto ter.
Recordo-me do primeiro dia em que te vi. Os teus cabelos ainda os cheiro, e os teus pés ainda os vejo a fazer círculos concêntricos no lago de Sanabria. Fazia sol mas o dia era gelado. Pelo menos nos noticiários, porque tu aqueces-te o meu dia. Pensei que nunca mais te veria mas felizmente não só te vi como te vivi, até hoje. Gosto de dizer que tenho de partir, mas na verdade não sei se é fuga ou êxodo. Sei o que deixo para trás, isso sim. Mas a vida é feita de escolhas.
Viro costas ao beiral limítrofe do casco do navio e caminho até ao quarto, a que talvez vá chamar de abrigo. Não sei. Apenas concretizo mentalmente de que “tem de ser”.
Vou tentar escamotear o bom senso que me resta e dizer que não são os teus lábios que sinto nos meus, ou os teus braços em redor do meu peito. Vou por meros segundos esquecer que por vezes a paisagem que consigo percepcionar não são as noites em que a lareira assistiu ao mais puro Amor, em que os cobertores cobriram duas almas banhadas em suor de mil romances, e o meu corpo deixou de ser meu para se entregar a ti num falso desespero. Vou pensar apenas que vou e volto, mesmo sabendo que o fundo da questão é saber porquê que nunca parti.

3 comentários:

daniela costa disse...

um texto lindo, diogo! os meus parabéns!

Ângela Raquel disse...

Realmente os hospitais iriam estar cheios de pessoas com o nariz partido, tens toda a razão :p
Este é só mais um dos teus belos textos, e pouco mais há a dizer em cada um que escreves (:

V disse...

Diogo, eu fico sem palavras para quando cá venho! Fico arrepiada por todas as palavras correctas que escolhes, como me sinto inundada e perdida nas tuas descrições perfeitas e que fazem de todos os teus textos dos melhores para serem lidos, e se viver mais um pouco.
Obrigada por estas maravilhosas partilhas, e parabéns por toda esta paixão que consegues passar sempre! :)