sábado, 9 de julho de 2011

"...Desprovido..."








Uma melodia arrepiante invadiu o meu corpo sem autorização. Uma melodia capaz de rachar a maior das tristezas. O piano, claramente, sufocava perante as dedadas vigorosas de alguém que sem falar conhecia todas as minhas necessidades.
Continuei a caminhar até onde a “42th street” se encontra com “Times Square”. A melodia esvoaçava pela atmosfera como os inúmeros pássaros que vêm, caprichosamente, do “central park” fazer aquilo que é o reconhecimento em voo controlado, que curiosamente é normalmente a forma de viajar da minha mente e sentidos.
O som prolongava-se por entre os edifícios de altura considerável tão característicos da cidade, que serviam na perfeição para uma acústica vibrante. Contudo, ninguém parecia abstrair-se da música do quotidiano, a música do fumo que ascende como trepadeiras em casa de campo, das sirenes que marcam ritmo quais maestros, do caminhar imperativo de milhares de pessoas que representam o mundo e se misturam numa massa tão fria e homogénea, e do som dos afazeres, da celeridade, que diga-se, daria um belo de um sapateado.
Persegui os meus instintos alimentados com doses irregulares de adrenalina, ou se calhar segui apenas a curiosidade que paulatinamente me enchia por dentro. Descobri o epicentro: Broadway. A rebeldia veio ao de cima. Toda a gente sabe que a única forma de entrar na Broadway sem ser visto é pela porta das traseiras. Times square fica para trás e a theater disctrict é pequena demais para a vontade imparável que sinto de encontrar quem me descobriu.
A porta das traseiras. Tal catedral do teatro com uma porta dos fundos em contra-placado? Curioso como até as coisas grandes têm em si próprias coisas de menos valor (não seremos todos nós assim?). Entro na porta semi-aberta como um menino envergonhado enquanto pratica uma das suas malandrices, e entro na lateral de um enorme anfiteatro. Pilares capazes de segurar o céu, paredes revestidas com salvas de mil públicos, e uma plateia dançante ao som da música do piano. Quem o tocava não sei ver. Dedos finos, crepitantes, capazes de criar, cabelos loiros esvoaçantes por ventos imaginários ritmados pelos movimentos ondulados do corpo, gotas de suor que sabiam a águas de mil mares inexplorados. Um olhar encontrou-se com o meu e a vergonha subiu-me as maçãs do rosto. Inesperadamente a música continuou. Sentei-me numa das cadeiras da primeira fila. Senti o ribombar dos tambores e o meu coração dançou valsas de Amor, a paixão insurgiu-se do nada e sem querer deixei transparecer a fragilidade há muito escondida. Fiquei ali a descobrir que são a verdade e o Amor quem faz mover o mundo, qual roda-viva.

4 comentários:

Ângela Raquel disse...

Céus, que transmissão de realidade :o

Vera disse...

Diogo sabes que especialmente dos teus textos sinto sempre a falta. E quando cá venho há sempre algo grandioso e maior na tua escrita, que me deixa quase apaixonada por cada linha, por cada pormenor que consegues realçar na tua escrita cuidada e óptima de se saborear.
O texto de "hoje" foi vibrante, por toda a melodia que conseguiste criar nas palavras (e que vou ser honesta, a Mafalda Veiga acompanhou-me no início e ajudou ainda mais a desfrutar dos sons do piano). Tenho que te dizer, que a Broadway para mim nunca esteve tão próxima, e a visão tão apaixonante do fim, deixou-me completamente rendida.
E tenho de deixar aqui o meu apreciar, "Curioso como até as coisas grandes têm em si próprias coisas de menos valor (não seremos todos nós assim?)", foi a melhor frase de que em tempos me consigo lembrar de ter lido, de facto tens toda a razão, por muito grandes que sejamos, há sempre algo muito pequeno em nós, não fôssemos nós seres humanos imperfeitos!
Diogo, obrigada por este "presente" já sabes :) beijinhos

Ângela Raquel disse...

Só te posso escrever um enorme obrigada pelos elogios :)
E continua com essa escrita maravilhosa que não fica absolutamente nada atrás da minha!
Um beijinho (:

Nya disse...

...Bom texto...