domingo, 21 de agosto de 2011

"...Desprovido - Part II..."







A melodia prolongou-se por tempo indeterminado até que o silêncio se instalou causando o constrangimento habitual. O silêncio soa como o escuro, em ambos não se sabe o que está a acontecer, nem há a certeza de se se vai cair ou apenas andar em frente. Curiosamente deparava-me com ambos. Os olhos encerrados traziam-me a insegurança da escuridão, e o silêncio apenas o mistério do que ai viria. Sentia aquela mulher em meu redor, desconhecia onde, mas os olhos recusavam-se a abrir, talvez por não precisar de os abrir para a conhecer e decifrar como as palmas das minhas mãos, ou porque me trazia a fragilidade ao de cima, a fragilidade de querer alguém e não ter forças para o impedir.
Uma brisa antecipou os seus cabelos. Tocaram-me como se fossem fitas de seda capazes de despertarem os meus sentidos, capazes de os dominar. Os olhos abriram-se de novo, e a luz do anfiteatro encandeou-me. Suspeito que tenha estado tempo demais de olhos fechados, não sei quanto, mas era um efeito hipnótico irresistível. Por detrás do palco uma das portas fechava-se e apenas fui capaz de ver o esvoaçar de um vestido branco, e as pontas lisas e loiras de um cabelo que de imediato reconheci. Ela sabia como me chamar sem qualquer palavra. Sabia o que fazer. De imediato as minhas pernas ergueram-se e corri. Saltei o palco com uma agilidade impensável tornando aquilo tudo menos um obstáculo. Abri a porta e vislumbrei-a num caminhar célere pela “theater district”, decidi, sem sequer pensar, segui-la até saber qual seria o ponto em que se encontrariam os dois em sincronia de uma vez por todas. Seria, contudo, capaz de esperar uma vida por esse momento. A adrenalina tomou-me de novo bombeada em doses lancinantes. Fizemos de Nova Iorque uma cidade pequeníssima, uma cidade capaz de caber no “Portugal dos pequeninos”. A “42nd street” foi corrida de lés a lés e a multidão perdeu substancialmente a importância habitual. Agora não se reparava na cor de pele, nos turbantes na cabeça, nos sotaques distintos, nas ruas tornadas passerelles para mulheres que expiram moda e inspiram ares recheados de conteúdos supérfluos banhados em ilusões (em que tão facilmente todos caímos), nem tampouco no barulho ensurdecedor que para tanta gente serve de única companhia. Em suma diria que nunca Nova Iorque havia sido ou estado tão quente como naquele momento. “Hell´s kitchen” ficava logo ao fundo, e a brisa do oceano fazia-se sentir com uma intensidade que ficava muito aquém daquela que eu próprio era capaz de produzir. A marginal era rasgada pela “12th avenue” e o arvoredo fazia sombra aos idosos que por ali caminhavam como ritual. Ela parou. Senti-me como se batesse numa porta por não saber se deveria quebrar a distância de segurança que havia criado. Criar distâncias havia sido um hobbie ao qual não sabia renunciar em toda uma vida, decidi então mudar isso. Continuei em passo medido a régua e esquadro até conseguir ver a cor azul das íris dos olhos dela. Ela aproximou-se. Do lado direito o oceano era mais pequeno do que os sentimentos explosivos que ali se afirmavam. As suas mãos tocaram o meu peito e o seu rosto firmou-as ainda mais vigorosamente contra mim. Os meus braços sabiam quem ela era por algum motivo e quiseram recebê-la mais perto e apertada do que jamais alguém havia estado. A brisa soltou um novo sopro e fez cair umas quantas centenas de flores das árvores circundantes que se apressaram a cair em nosso redor. Sentia o calor emanado pela pele dela, e os meus lábios saborearam os seus cabelos num beijo despropositado. Pela primeira vez o silêncio quebrou-se.
-“Sabia que virias”, disse ela conseguindo um eco criado pela minha falta de entendimento. “Só poderias ser tu!”

1 comentário:

Ângela Raquel disse...

Escusado será repetir tudo o que digo em todos os comentários que faço ao teu blogue. Escreves sempre tanto e sempre tão bem, dando a entender que te entregas à escrita de uma forma inevitável.
Beijinho (: