domingo, 17 de maio de 2009

Sou Feliz!

O barulho dos queixumes ressoava no quarto gélido deste rigoroso inverno. Inverno da vida. Os meus 85 anos não perdoam. O frio pesa e os meus ossos lutam para não ceder. Sou só eu. A almofada sente saudades de cheirar o teu cabelo dourado deitado sobre ela. Eu, pois bem, eu sinto saudades de ser a tua almofada, colchão, colcha e cobertor. Protegia-te do frio, refrescava-te do calor, absorvia a tua dor, escondia o meu medo. Amor era o que era.
O tempo tem-me ensinado, mas não tem feito esquecer o dia em que jazias deitada nesta mesma cama sem fôlego. Haaa…sem fôlego. Sem fôlego ficávamos quanto nos podiamos beijar, quando nesta mesma cama suávamos gotas de paixão, provávamos que tivemos dois filhos de pura redenção amorosa.
A aurora aproxima-se e ainda não pisquei olho. Diabos me levem se esta reforma não é aborrecida. Reforma do trabalho, reforma da vida, reforma de ti. Não sei porquê mas sinto arrepios sempre que olho para a nossa, quer dizer, tua, ou, talvez minha foto. Terá vida? Terás vida aí? Parvoíce. Estás no outro mundo.

«Pai deitado a esta hora já?»

A voz do meu orgulho de filha parecia longe, muito longe. Ouviste-a tão bem como eu, não foi? Estás aqui eu sinto-te. Amas-me, beijas-me, abraças-me, deitas-te ao meu lado, pedes-me a minha alma.

«Pois, parece que sim. Mas ainda é bem de manhã.»

«São três da tarde e estás aqui enjaulado. Oupa seu tolo levanta-te»

O calor abraçou-me pela primeira vez em muito tempo. O sol raia na minha cara e as janelas embaciaram com o bafo de uma vida passada. Ficaram tão foscas quanto a minha visão desgastada pelo tempo. A bengala já não chegava para me segurar. Que se dane.
O estrugido chegou-me ao nariz. Inalei. Agrada-me. Graças a deus tenho saúde para comer o que quiser. È uma bênção. Sou forte por dentro, forte por fora. Tenho fé, tenho vida. Tenho amor escondido na fuligem que me cobre desde que aqui não estás. Tenho o prazer de respirar felicidade, envelhecida felicidade. Tenho vida coberta por pó de ouro que me protege e espera vigorosamente até ir ter contigo. Sou velho, e hoje sou sábio. Descobri que tenho o que mais importa. O que me mata? Nada. Mas ao mundo mata a preocupação de viver pelas grandes coisas e não pelas pequenas. Ri-te das rugas que aparecem no rosto, das malandrices, das noites passadas a discutir, dos dias em que a doença levou a melhor sobre ti. Ri por estares aqui e agradece. Há para quem um piscar de olhos significa mais um milésimo de segundo em que a vida os obriga a lutar.

10 comentários:

Ana Moreira disse...

Adorei! Como sempre te digo, és sublime! O melhor tema que poderias ter retratado, sem dúvida! Parabéns :)

Mara disse...

Obrigado Diogo. ^^
Hoje o dia não me correu lá muito bem mas, apesar disso, continuo a achar que amar é sempre bom, seja lá com que consequências.

diana disse...

Táaa lindo e é a terceira vez que o venho ler bebe **

Lindo Lindo Lindo, cada vez escreves melhor continua, nao deixes de o fazer mia coisa boa ehehe... xD



eu sou feliz... ctg!

Cláudia disse...

olaaaaaaa :)

Sim.. Tu és da turma da Ângela

nadamos ambos na FDUP :)

eu conehço a tua cara de lá :)

muito obrigada pelo elogio, fico msm contente que gostes:)

mas rebobro e elogio e reencaminho-o também para ti :)
beijinhu e obrigado pela visita

Qel disse...

Obrigada pelas lavras.
Ah, vou privar o meu cantinho. Envia-me o mail da tua conta do blog o mais rápido possível para eu te adicionar e para o poderes ler, se quiseres, por favor.
Um beijinho *

Mara disse...

Acho que te vi hoje...
mas foi muito rápido, nem tive reação ^^

Cláudia disse...

Mal te veja na faculdade vou ter contigo e apresento-me :)

Bem se sou boa menina ou não.... Isso agora.. Depois verás :)

beijinhus
e ate um dia destes

P' disse...

Está lindo , man :O

P' disse...

Obrigada , vou aparecer mais vezes. (:

catarina santos disse...

obrigada pelo comentario :D
os teus textos sao sempre divinais, sem comparaçao! gosto sempre de passar por aqui :) *