segunda-feira, 5 de março de 2012

"...Palimpsesto..."

"...Well i can see the pain in you,

and i can see the love in you,

and fighting all the demons will take time,

it will take time..."








A chuva precipita-se a bombardear o mundo. As tábuas de madeira que formam o caminho por entre as dunas escurecem, mudando de cor tão rápido como um camaleão exibindo a sua técnica perfeita de disfarce. Aliás, tudo aqui parece querer disfarçar-se. A lua torna-se voluntariamente pouco nítida, escondendo a sua estranha inquietude. O mar esconde a insegurança que sente na sua voz rouca e monocórdica, por detrás do crepitar da chuva a embater violentamente na areia, que apesar do impacto se apresenta falsamente indemne e imutável. As gaivotas e mergulhões vêm em formações bem organizadas para terra não demonstrando o medo incontrolável que sentem da mais pequena intempérie. O vento mostra-se pacífico, disfarçando os aromas a odisseias perdidas no tempo, das especiarias esquecidas no horizonte, das histórias por contar de epopeias que nunca chegaram a existir. Por minha vez, apenas olho o caminho de madeira. Parece tão complicado dar um passo que seja. Piso as tábuas de madeira fazendo-as ranger á minha passagem. Paro com receio de que cedam, faltando-me a coragem de prosseguir. O meu corpo está dorido por dormir num chão que insistiu em não amolecer a meu mando, recusando-se a entender a dor que sinto em adormecer num qualquer lugar sem ti. Não sei se são lágrimas que me caiem em catadupa pelo rosto, ou se é a chuva que na sua rebeldia me quer encharcar sem dó nem piedade. Somente sei que não passo de uma fábula escrita em papiros devorados pelo tempo, cuja moral é a de que nenhum homem algum dia poderia ser força da natureza. É dúbio diria. Contigo criava elementos naturais desconhecidos pela natureza, proibidos por deliberações do consílio dos deuses, temidos pelos comuns dos mortais. Recordo-me. Contigo sou capaz de tudo! Os céus abriam-se quando os meus dedos tocavam a tua pele, tão suavemente como penas trazidas por ventos glaciares, arrepiando-te incontrolavelmente; O tempo inexistia quando o desejo da minha respiração tocava os teus lábios anunciando um beijo repetido em vidas passadas, conservado em mim para te dar até ao fim dos tempos; O vento enlouquecia quando os meus lábios provavam o néctar que os teus poros insistem em produzir para mim; Perdia-se a cisão entre noite e dia quando o teu ser e o meu se confundiam e a Alma bradava aos céus mensagens encriptadas por anciães de outros mundos, e os nossos corações batiam num uníssono que definia o movimento indefinido da vida; O mundo era nosso, a natureza era nossa, o Amor é nosso!
Fecho a gabardine como se isso me fosse proteger dos perigos que o caminho por entre as dunas me pudesse reservar. Ficar parado, ou voltar para trás parece ser a escolha ideal sem ti. Desaprendi a caminhar sem a tua mão. O teu sorriso iluminava-me o caminho mais soturno. O teu caminho é o meu caminho e, se o meu coração não me engana, eu quero-te! Se a Alma não me falha, eu Amo´te!

1 comentário:

Ângela Raquel disse...

Está realmente bonito; um texto bastante apaixonado. Beijinho, Diogo (: